Erosofia

Sonhei que amava um tríptico:
Byung (e) Chul (e) Han
Dividiam-se comigo

Diziam-me na cama em uníssono:
Amor, dá-nos somente o que quiseres
Jamais o que te pedimos

E eu lhes dava
Na frente, na boca e por trás
Aos três, ao mesmo tempo
Sem cansar-me jamais

Negava-lhes, porém, o olhar
Todo o caos que em mim trago
Paixão, amor, sem mistério
Seria muito pornográfico.

II

Ela decidiu fazer

como os homens de bem

e da família

e dormir com as tias

com todas as tias

(as gordas, as magras

as feias e as bonitas)





Com todas as sobrinhas

com todas as filhas

por vezes com os filhos

e os sobrinhos

jamais, porém,

com os tios





E tendo feito isso

sentou-se à mesa

faminta

foi servida, e saciada

lambeu os beiços e os dedos

enfim, patricida.

Histórias da Carochinha ou a mulher e seu ombro delicado

A Modernidade já não era mais um bebê chorão, muito pelo contrário, ela era uma moleca que vivia fazendo perguntas descabidas para o pai. O Homem estava de saco cheia da filha, mas não se atrevia a perguntar para a Mulher o que ele deveria fazer. A Mulher, pensava o Homem, era como as cópias chinesas dos produtos de marca: produzida na mesma fábrica, com o mesmo material, mas sem a etiqueta correta.

Num dia de calor infernal, o Homem pediu para a filha buscar água, ele estava morrendo de sede. Atrevida a Modernidade respondeu:

— Busque você, que eu estou ocupada.

O Homem ficou vermelho de raiva e pensou em ameaçar a filha, mas ele já tinha que olhar para cima para falar com ela… A danada tinha crescido e ainda fazia jiu-jitsu duas vezes por semana. Idade Média, a filha do meio, estava agora morando numa república, mas antes de se despedir do pai, olhou para a irmã, que castigava um saco de areia no jardim e disse debochada ao velho:

— Quem pariu Matheus que o embale!

Como a Idade Média fazia falta! pensou o Homem, era tão baixinha…

Resolveu mudar de tática e arriscou:

— Não posso, filha. Minha perna direita está paralisada, não posso sair por aí feito um Saci. Vai que eu escorrego! E… e… eu sou desajeitado! Nasci assim, pronto falei!

Modernidade revirou os olhos e com desprezo respondeu:

— Pegue a mãe e use como muleta!

E foi o Homem, para não perder a moral, e botou a Mulher debaixo do braço, se apoiando nela até alcançar a geladeira. E no caminho percebeu o Homem como a Mulher era cheirosa, como a Mulher era jeitosa como muleta, e como o seu ombrinho delicado se encaixava tão bem no seu sovaco de Homem iluminista…

Analogia

Gilberto sonhou

Que a senzala

Látego latente e latejante

Adentrava litigiosamente a casa grande

Sem afeição alguma

Sem teta de ama de leite

Sem histórias de preta velha

Sem esperanças de concubinato

E alforrias

Sem capitão do mato

Para prender esse negro safado

Que botou o senhor de quatro

E bezuntando o membro ardente de banha de cheiro

O fez engolir gota por gota

Essa mentira violenta

De democracia racial.

In: Mitomaníaca, 2020.

Severina

A lei é severa

Severina

Porque é lei

Ser severa

Porque você tem olhos

Porque você tem dedos

Porque você tem unhas

E um coração que bate

Severina

Você não pode

Decidir sozinha

Severina

Você que tem olhos

Que tem dedos

Que tem unhas

E coração batendo

E está dizendo:

Sim, sim

Eu quero esse abortamento

Desse filho anencéfalo

Não, não pode

Teus olhos

Dedos, unhas

Cérebro, coração batendo

Você dizendo

Você não pode, Severina

Entenda

A lei é severa

Porque é lei

Severina

É lei ser severa

Severina

É lei.