Infantia, -ae

Ele disse
Não conte para ninguém
Ele disse
Espere-me no portão
Ele disse
Fica quietinha
Ele não disse mais nada
Ela ouviu o que ele não dizia
Ela não sabia o que ele queria dizer com aqueles sons
Ela não sabia o que queria dizer o que era indizível
Ela não sabia como dizer: não
Ela não sabia dizer: não
Ela não sabia:
Não!
Ela não sabia:
Não!
Ela não sabia:
Infância.

Publicidade

Erosofia

Sonhei que amava um tríptico:
Byung (e) Chul (e) Han
Dividiam-se comigo

Diziam-me na cama em uníssono:
Amor, dá-nos somente o que quiseres
Jamais o que te pedimos

E eu lhes dava
Na frente, na boca e por trás
Aos três, ao mesmo tempo
Sem cansar-me jamais

Negava-lhes, porém, o olhar
Todo o caos que em mim trago
Paixão, amor, sem mistério
Seria muito pornográfico.

III

Hoje eu queria estar só

Como no útero de minha mãe

Um nada

Abraçado pela película da vida


Desde que nasci

Desconheço a solidão

Mas me abraça o medo


Se eu chorar

Quem há de oferecer-me o peito?

Quem há de nutrir-me a ilusão

De não estar só?


Hoje eu queria não estar só

Como a minha mãe

E o seu útero

Pleno de mim.

II

Ela decidiu fazer

como os homens de bem

e da família

e dormir com as tias

com todas as tias

(as gordas, as magras

as feias e as bonitas)





Com todas as sobrinhas

com todas as filhas

por vezes com os filhos

e os sobrinhos

jamais, porém,

com os tios





E tendo feito isso

sentou-se à mesa

faminta

foi servida, e saciada

lambeu os beiços e os dedos

enfim, patricida.

A subjetificação do desejo

Este é um texto escrito às pressas como o despir-se agoniado e sedento de dois corpos que se desejam. Mas que corpos são esses? São corpos negros, são corpos de mulheres, são corpos de mulheres negras que se amam. Por pouco ou muito, ou há muito tempo. São lésbicas, são bissexuais. São corpos negros lésbicos bissexuais encontrando-se e tateando-se no momento primeiro de suas existências, que se repetem ao encontro de cada beijo, de cada toque, de cada arder de corações, de cada escorrer de amor entre os dedos que desesperados adentram e deixam e adentram novamente aquelas existências. Em cada corpo um universo, onde elas se encontram, se desencontram, encontram outras, dão-se as mãos, lambem os dedos saciadas. Em cada desejo refletido num piscar de olhos, exprimido num gemido, desenhado pelo desalinho que os corpos deixam nos lençóis da cama, uma nova mulheridade. Em cada orgasmo a lembrança de que são corpos habitando mentes, que habitam mundos, onde as suas existências são Fata Morganas, que escondem fontes escuras e frescas, materializam-se somentes nas bocas daquelas que mesmo tendo areias em suas mãos, sabem que, uma vez sendo estas engolidas se transformam em líquido aquoso, escorregadio e frutífero, regando o oásis a espera da próxima.

Uma lésbica é uma mulher à espera dela mesma.

Uma lésbica é uma visão terrível de si mesma sem o binômio patriarcal.

Uma lésbica tem as minhas mãos.

Tem nem sempre os meus seios.

Tem nem sempre uma vulva.

Mas me tem.

E eu me quero muito.

De todos os tons, formas e maneiras.